segunda-feira, 1 de agosto de 2005

sr. certinho vs caseiro

sr. certinho foi como alguém se dirigiu para mim.

não pude deixar de entender este epíteto completamente deslocado, ainda vindo de quem veio.

compreendo-o, de algum modo, mas concedendo-lhe uma margem de veracidade muito exígua, passe a redundância (1).

por outro lado, é o exemplo acabado de que se chega a rótulos imediatistas tão imprecisos quanto ridículos, e leva-me um pouco mais longe, pressupondo uma analogia global e genérica:

o mundo é o palco da vida em que todos somos actores, ora principais, secundários, ou meramente figurantes, dependendo das situações, no tempo e no espaço, e ainda numa outra dimensão que se refere ao social, entendendo esta última dimensão no que respeita aos destinatários das acções sejam no papel de intervenientes na cena ou de meros espectadores.

em todo o caso, um mesmo indivíduo pode assumir todos os valores possíveis numa gradação de valorização da importância da sua representação, dependendo do ponto de observação, ou se se quiser chamar, numa figura cartesiana, dependendo do ponto de origem.

mas mais do que isto, estamos presentes numa grande peça, mas desempenhando diferentes papéis, ou melhor dito, num sistema de peças, entrando em várias sub-peças que constituem as suas diferentes partes.

deste modo, cada indivíduo tem do outro, não a sua exacta correspondência enquanto indivíduo mas sim uma representação, um papel, uma parte do sistema, que pode ser mais ou menos superficial, ou mais ou menos próxima do sistema no seu todo (sendo que o sistema no seu todo não existirá, ou talvez melhor dito, tenderá para o infinito).

e aqui neste jogo de representações há de tudo, desde representações naturais, a representações dissimuladas, a representações forçadas, a representações voluntárias e involuntárias, e a cada instante os indivíduos poderão de alguma forma regular o seu grau ou a sua postura de actuar, fornecendo representações minimalistas, através de pequenas partes do sistema, ou através de representações mais consentâneas com o aproximar do todo.

é não perceber a relatividade da representação da vida real, e o papel de cada um tem, para consigo próprio e em relação aos outros actores, que casos caricatos como este surgem.

infelizmente ou felizmente, vá-se lá saber…

(1) [para o melhor entendimento da origem desta compreensão e do seu grau de valorização seria necessário um desbravar por assuntos que no caso não se inserem no âmbito do que aqui vai aparecendo, inclusive, este próprio ‘post’ já poderá parecer excessivo…]

quinta-feira, 16 de junho de 2005

estou farto...

estou farto de ouvir e
farto que me digam
que sou um tipo inteligente,
espectacular,
que consegue ver para além de…

que vê,
que escreve,
que ouve,
que se interessa por isto,
que se interessa por aquilo,
que é um verdadeiro profissional naquilo que faz,
e que ‘domina’ um conjunto de pequenas ferramentas paralelas e úteis…

que tenho capacidade disto e daquilo,
que produzo elementos e trabalhos com valor,
que sou ‘amigo’,
que sou simpático,
que sou boa companhia,
etc.

todo um conjunto de coisas
que me surgem como visões
positivas e favoráveis e elogiosas
da minha pessoa.

estou farto!
parem por favor!
rogo-vos para que parem com essas considerações!

até porque não sou nada disso que dizem que sou.
não me sinto assim.
não sou!

e mesmo que assim o fosse ou seja,
a verdade é que não me tem levado a lado nenhum.
não sou mais feliz por isso!

não sou assim!
ou
não quero ser assim:
que sou diferente!
que sou uma pessoa bastante especial!
etc.

parem!
não sou!
não quero ser!
não quero ser diferente!
não quero ser especial!

quero ser normal!
só quero ser normal!
quero ser feliz!
só quero ser feliz!
seja lá o que isso for!

não quero ser especial!
não quero que me digam que sou especial!
para depois logo a seguir
me dizerem que não querem estar comigo,
que não gostam de mim!
para depois me abandonarem!
não quero que me admirem!

quero simplesmente que gostem de mim!
quero somente gostar de alguém!
quero estar com alguém que queira estar comigo!
quero afinal o que toda a gente quer:
quero amar e ser amado…

segunda-feira, 25 de abril de 2005

o ‘teu’ corpo

ora ele há coisas que realmente são uma grande coincidência…

andava eu há um determinado tempo a pensar em escrever sobre uma determinada sugestão mental que um certo artigo de publicidade me suscitava, e estava cada vez mais decidido a transpor para a escrita essas questões, até que hoje dou por mim a ler o artigo da isabel stillwell, na notícias magazine de hoje, 24 de Abril de 2005, que por vias travessas e próximas me forçam claramente a não deixar de escrever sobre o assunto.

no dito artigo, intitulado ‘dura comparação com as moças dos anúncios’, isabel stillwell tem um assombro de realidade e toma consciência de que ‘não vamos para mais novos, nem para mais magros’, afirmando-o neste contexto de aproximação do verão, em que em tudo quanto é lado, somos invadidos pelas campanhas publicitárias que apelam à preparação do corpo para os ditames da exibição da forma do corpo, e a procura de atingir esses ‘modelos de virtude’ que surgem em tudo quanto é anúncio de televisão, de jornais, revistas, mupis, outdoors, etc.

essas coisas que ‘de todos os lados nos cercam e nos parecem impor a urgência de sermos aquilo que não somos, de parecermos aquilo que não parecemos, de usarmos uma roupa de geometria impossível sobre um corpo que temos a obrigação de conservar imune à passagem do tempo’…

e agora, perguntar-me-iam (como se eu estivesse diante de uma plateia ou audiência, ou à conversa com alguém), mas como é que isto se relaciona com aquilo que andavas para aí a matutar?

e eu explico:

defronte do meu local de trabalho existe uma farmácia, que até há bem pouco tempo ostentava na sua montra um enorme placard publicitário a um desses produtos cosméticos, adelgaçante, reafirmante, anti-celulite, e o mais que eu sei lá. mas o que tinha esse placard de interessante? ora tinha precisamente como ‘cabeça de cartaz’ uma dessas ‘moças novas’ de que fala a isabel stillwell, fotografada de costas, e realçando o seu corpo desde a parte inferior das costas às coxas, demonstrando as suas formas firmes e mostrando tudo no sítio, ou muito próximo daquilo que serão as ‘medidas anatómicas ideais do modelo da beleza contemporânea’.

mas o que tinha de tão sugestivo?

o que tinha de tão sugestivo, era realmente a sua extrema capacidade de atrair a minha atenção para ele, mas por vias indirectas. eu explico melhor. sempre que por ali passava, não conseguia deixar de o observar durante alguns segundos, mas o que eu via não era propriamente o dito cartaz, nem captava ao ínfimo pormenor as formas da dita ‘moça’. a minha mente buscava a imagem de uma figura feminina, outra, seja ela qual for, ou seja, olhando para o cartaz eu não via a modelo, mas antes visualizava um corpo inexistente, outro qualquer

não interessava, e não interessa, aquilo que são os ditames impostos pelo actual contexto social da forma modelo. o que quero dizer é que tinha ali defronte dos meus olhos uma sugestão próxima do modelo, mas que isso não me despertava nada de importante, nem de menos importante. digo mesmo que era nulo o interesse. na verdade, o especial dessa sugestão era mesmo a visualização de um corpo imaginário, com as suas formas próprias, com as suas especificidades, ora mais próximas, ora mais distantes desses modelos, ainda que sem definição de formas e proporções

o que importa mesmo, era realçar num corpo, cada ínfimo pormenor, cada curva, cada poro, cada sinal, cada borbulha, as tonalidades da pele, ora mais rosado aqui, ora menos ali, a sua temperatura, com as suas partes frias e as suas partes quentes, era essa cartografia mental que me assaltava, e que no fundo era associar todos esses pormenores à existência (ir)real de um corpo, e não o de um corpo que pode pertencer a qualquer pessoa indistintamente. ou seja, todos aqueles pormenores, que sejam passíveis de cartografar na mente, com todos os sentidos, de um corpo com determinadas formas, e que pertencem a um corpo particular e único que é ‘aquela’ pessoa, de quem se pode sentir a sua ausência, e a ausência do seu corpo.

numa perspectiva de não se sentir a ausência de uma qualquer companheira, de um qualquer corpo. sentir a ausência ‘daquela’ companheira, e ‘daquele’ corpo. que por sinal, muita boa gente não vive muito bem dentro dele, mas que é um corpo que se admira e que se adora percorrer cada ínfimo pormenor dele.

não me interessam nada esses ‘modelos de virtudes’, o que me interessa é ‘um’ corpo, com os seus ‘defeitos’ e ‘imperfeições’, mas que são precisamente esses defeitos e imperfeições que lhe dão a sua personalidade, e são esses defeitos e imperfeições que não se encontram em mais nenhum, porque é único. e são esses pormenores únicos que me fazem ‘amar’ ‘um’ corpo e quem mora nele…

quarta-feira, 16 de março de 2005

Estrangeirismo

further down the spiral
of mellon collie and
the infinite sadness

domingo, 15 de agosto de 2004

...porque não me matas o desejo?

Chego a casa!
Abro a porta do quarto!
Olho-a fixamente!
Ali está ela! A minha cama vazia!
Olho-a fixamente, como que à espera de te ver nela deitada!
Deito-me, então, na minha cama minúscula!
Mas que espaço! Que grande esta cama sem ti!
Que desejo! Um enorme desejo toma-me de assalto vezes sem conta!
E eu pergunto-me: Oh Amor, porque não me matas o desejo?
E entretanto, a cada tentativa, este meu desejo recrudesce!
Exacerba-se cada vez com mais força, mais intensidade, mais vigor!
Este desejo de te abraçar,
Este desejo de te tocar,
Este desejo de te acariciar,
Este desejo de te mimar,
Este desejo de te beijar,
Este desejo de te sentir,
Este desejo de te ter ao meu lado. O teu corpo contra o meu!
Este desejo de sentir o calor do teu ser!
Este desejo de te ter!

sábado, 15 de novembro de 2003

O filme completo

estamos próximos, mas tu aproximas-te mais
envolves os teus braços nas minhas costas

movimentas levemente a tua face percorrendo a minha
e em torno do pescoço entrando em contacto pontualmente

simultaneamente movimentas as tuas mãos nas minhas costas,
exerces alguma força com as mãos e pressionas o meu corpo contra o teu

assim pressionados e com movimentos pélvicos suaves e intensos,
aumenta a circulação sanguínea,
o desejo desperta e emerge à flor da pele

com a mão tentas sentir o meu sexo!
a roupa atrapalha!
introduzes a tua mão por dentro das minhas calças.
Tocas-me delicadamente.

envolves o meu sexo com a tua mão,
e sentes nesse contacto a pulsação da circulação sanguínea que o faz crescer para ti entre as tuas mãos

o meu sexo está agora firme e tu agarra-lo com firmeza!
beijamo-nos deliciosa e lascivamente!
Acaricias ritmadamente o meu sexo

dessas carícias intensas e ritmadas,
o desejo toma-me completamente de assalto!
estou verdadeiramente excitado!
tu continuas com o teu jogo de sedução...

...não paras!
estou cada vez mais fora de mim...
e tenho uma libertação de êxtase fenomenal e tu...
continuas o teu jogo de sedução...

segunda-feira, 8 de setembro de 2003

Universo de beijos

Certo dia, houve um certo poeta que engendrou uma campanha publicitária com a seguinte frase: primeiro estranha-se, depois entranha-se! Eu também comecei por estranhar, com medo que o céu me caísse em cima (!), mas como o céu se transformou no 'universo de beijos', belos, suaves, macios, fofos, resplendorosos, portadores de vida, deixei que eles se entranhassem, se revirassem, nos quais eu fluía, nadava, voava e por cada um que cruzasse a felicidade era crescente, por saber que todos eles tinham sido plantados nesse universo por ti e deixados para mim!